| Intervenção - O mar enquanto espaço de afirmação estratégica e cultural. A Perspectiva Moçambicana |
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O MAR ENQUANTO ESPAÇO DE AFIRMAÇÃO ESTRATÉGICA E CULTURAL Por: Mário Machungo
1- Antes da chegada dos Portugueses ao Oceano Índico, existia na costa oriental da África uma intensa actividade comercial protagonizada pelos Swahilis e Árabes, desde Mogadishio até Sofala. Foi nesses contactos comerciais que se desenvolveu entre os africanos da costa e os árabes, a religião muçulmana. Quiloa, Mombaça, Melinde e Pate eram as cidades mais importante da Costa Oriental da África. As principais mercadorias levadas pelos árabes a esta costa foram os tecidos de algodão fabricados na Índia ou transportados para a África através da Índia, bem como as missangas. Estas mercadorias eram trocadas por marfim, escravos, ouro, âmbar, cera, resina e por vezes ferro. Entre 1421 e 1422 o almirante chinês Zheng He navegou até ao Canal de Moçambique, passando por Mogadishio e Zanzibar. Com a morte de Zheng em 1433 a dinástia Ming desistiu da sua política de expansão marítima com o argumento de que o comércio era uma actividade baixa e a expansão marítima representava um risco para a integridade do império. Há historiadores que apresentam outra razão para a China ter desistido dos seus projectos de comércio e expansão marítima. A frota chinesa era constantemente alvo de ataques frequentes de piratas japoneses na costa oriental e os mongóis e manchus nómadas ameaçavam a fronteira norte da China, o que levou o imperador chinês a redefinir a sua política e a concentrar as suas atenções na defesa das suas fronteiras. 2. A chegada dos portugueses aos mares do Oceano Índico não foi encarada com simpatia pelos árabes que dominavam, até aí, o comércio na região. Os Swahilis e árabes já tinham criado, desde o século X, bazares no império de Monomotapa, em Sofala e nos territórios vizinhos. Foi a partir destes entrepostos comerciais que os mercadores árabes e swahilis desenvolvem o comercio regional com os povos africanos da costa e o interior. Para o controle do comércio no Oceano Índico a coroa portuguesa definiu a estratégia de ocupar todos os pontos estratégicos do Oceano mandando construir os fortes de Goa, Ormuz e Malaca, o que lhes permitiu assegurar o controle do comércio de especiarias na região, a excepção do Mar Vermelho. Depois de esmagado e afastado o monopólio comercial árabe muçulmano na região, foi estabelecido um sistema de monopólio da Coroa e em benefício da Coroa. Para assegurar o domínio do comércio com a Índia e o controle do Comercio de longa distância nos mares do Oceano Índico, a Costa de Moçambique passou a desempenhar um papel estratégico fundamental o que levou à construção da fortaleza de Sofala em 1506 permitindo a Portugal não só assegurar o abastecimento dos navios como servir de ponto de apoio para a penetração no interior da costa, em busca do ouro do império de Monomotapa afastando os árabes da região. Foi, contudo, a partir de 1550 que se intensificaram as acções para o controle efectivo do Império de Monomotapa. No princípio, o comércio com os produtores africanos do império era feito de uma forma não oficial. O desenvolvimento dessas actividades e a necessidade de assegurar a sua continuidade e controle levou os mercadores e as autoridades portuguesas a concluir acordos com os chefes do império através dos quais os portugueses, contra o pagamento de um tributo equivalente a 3000 cruzados em tecidos e missangas, adquiriam os direitos de circular pelas terras do império e exercer actividade comercial vendendo sobretudo tecidos em troca do ouro. A aquisição desse ouro era importante para os portugueses pois, era com ele que compravam especiarias e tecidos da Índia. Para além do ouro, os portugueses adquiriam também marfim, cera e escravos. Apesar dos acordos entretanto estabelecidos com alguns chefes do Monomotapa, os portugueses enfrentaram algumas dificuldades nos contactos com os produtores africanos do interior do império. Como a obtenção ouro era importante para manter o comércio com a Índia, os mercadores portugueses procuraram explorar as divergências e lutas entre os chefes do império ajudando e apoiando uns na luta contra os outros, obtendo, em contrapartida, a concessão de terras e a consolidação das suas posições no território. Penetrar no Vale do Zambeze era estrategicamente importante para a política de expansão e controle da costa africana e do comércio na região. Essa incursão e fixação, passavam pela expulsão dos comerciantes árabes de Oman. A penetração no interior do Monomotapa foi acompanhada pela introdução, na medida do que era possível, de mercadores portugueses até à capital do império. Esse avanço para o interior foi facilitado pelos compromissos assumidos pelos chefes locais, na esfera política e militar, com o português, tornando-os cada vez mais dependentes e tornando-os vulneráveis a pressões para a concessão de minas de ouro e de terras ricas em ouro aluvionar e de outros minerais como o ferro e o chumbo. A intensificação da actividade comercial portuguesa e o aprofundamento do desequilíbrio na relação de forças a favor dos invasores lusos, levaram à desagregação do tecido político social do império e à erosão da economia, transformando a maior parte dos camponeses em trabalhadores das minas exploradas pelos portugueses e pelos chefes do império do Monomotapa. A actividade económica introduzida e desenvolvida pelos portugueses na região teve como consequência a alteração das relações de produção até então prevalecentes na região ao transformar o ouro, o marfim e os escravos como valores de troca e moeda que se transformaram em capital que permitiu aos novos mercadores expandir o comércio marítimo de longo curso. 3- A partir de Sofala a actividade comercial portuguesa expandiu-se para o Norte, atingindo as regiões da baixa e alta Zambézia indo até Chicoa e Quirimbas. Para o domínio e controle desta vasta região, Portugal estabeleceu um sistema de colonização conhecido por prazo, solução político administrativa que resolveu o problema da ocupação e administração destes territórios utilizando indivíduos originários de Goa, face à dificuldade de povoar estes territórios com o recurso a indivíduos de origem portuguesa, porquanto, a população portuguesa, no século XVI, era escassa, não excedendo um milhão e quatrocentos mil habitantes. Os Prazos foram primeiro instalados em Sena nos finais do século XVI donde irradiaram para a baixa Zambézia até Ibo. A Coroa Portuguesa para estimular a ocupação e a iniciativa privada nos territórios recém conquistados adoptou a política, já referida, de conceder terras a indivíduos originários de Goa que tomaram a denominação de prazeiros. Constituindo uma classe dominante, os prazeiros, possuíam e controlavam um exército privado de escravos e os chefes locais eram relegados a uma posição subalterna de subordinados dos prazeiros, com a função de organizar e controlar a produção, o tráfego de mercadorias e o comércio de escravos, como mandatários dos prazeiros. Estes intermediários locais foram destituídos de qualquer autoridade pois era ao prazeiro que era conferido o poder absoluto como Chefe Supremo e proprietário do Exército. A expansão dos prazos, não tendo sido fácil, foi possível através da exploração das divisões existentes entre os chefes locais aos quais era exigida a concessão de terras em pagamento dos serviços prestados. Os grandes prazos, constituídos nos primórdios do século XVIII, dominaram toda a região do baixo Zambeze, desde Luabo até Chicoa. Tinham uma grande área de jurisdição onde os prazeiros detinham o poder de fazer justiça, declarar guerra, cobrar impostos, etc. Os prazeiros, com utilização de intermediários, estenderam a sua actividade comercial a vastas regiões da baixa e alta Zambézia, onde obtinham cobre, marfim, escravos, cera, em troca de tecidos , missangas, braceletes de latão, bebidas alcoólicas (aguardente) e sal. A partir dos meados do século XVIII os prazeiros goeses tornaram-se proprietários de minas de ouro, havendo historiadores que mencionam terem sido produzidos mais de 100 kg deste metal por ano, até as últimas décadas do século XVIII, quando a produção começou a declinar. As relações de produção nos prazos eram de natureza essencialmente feudal. Os chefes africanos subordinados ao prazeiro, pagavam a este um tributo em espécie, como por exemplo, mel, tabaco, manteiga, tecidos de algodão de fabrico artesanal, marfim e ouro em pó. Na sua posição de chefe, o prazeiro adoptava os costumes locais, casava-se com as filhas dos nobres para dissimular a usurpação do poder tradicional, melhorar a sua posição e maquilhar a sua imagem para ser melhor aceite pela população. Os prazeiros "indiginizaram-se" para a sua melhor inserção na sociedade e ganhar maleabilidade política e administrativa tendo em vista facilitar o desenvolvimento da actividade económica e do capital mercantil. A importância do ouro e do comércio do marfim exigiam este esforço de adoptação e de controlo do território, pois o marfim era traficado regularmente com os mercadores que penetraram para o interior das actuais províncias da Zambézia, Nampula e Niassa. Este modo de abordagem do mercado permitiu aos prazeiros desempenharem melhor o seu papel de intermediários no comércio internacional de longa distância entre Moçambique e Índia e entre Moçambique e Europa e América do Sul, exportando marfim e escravos para o Brasil e para as Ilhas Maurícias e Bourbon, onde os franceses tinham, entretanto, iniciado, no século XVIII, plantações de cana de açúcar. 4-Nos finais do século XVIII a autoridade dos prazeiros começa a declinar em consequências das revoltas frequentes dos camponeses moçambicanos que se opuseram à venda da sua produção a preços artificialmente baixos e ao pagamento de impostos pesados. As revoltas dos camponeses e as migrações tiveram como resultado o declínio da agricultura nas terras dos prazos e consequentemente à escassez de produtos alimentares. Nos meados do século XVII, como resultado da ocupação de Angola pelos holandeses, a exportação de escravos para o Brasil a partir de Angola deixou de ser viável o que levou a Coroa Portuguesa a virar-se para a costa Oriental da África como fonte de abastecimento alternativo de mão de obra para as plantações do Brasil. Com o crescimento espectacular da procura de escravos para o Brasil e para as Ilhas francesas do Oceano Índico, começa o novo ciclo comercial na costa moçambicana que é caracterizado pelo predomínio do tráfico de escravos em detrimento do comércio do ouro e do marfim. A este respeito Carlos Serra refere que "as exportações de escravos moçambicanos para o Brasil, viriam, porém, a ser suplantadas pelas que passaram a efectuar-se para as Ilhas de Bourbon e de França, respectivamente em 1642 e 1714 onde os franceses introduziram as culturas de café, cana de açúcar, algodão, anil etc. As exigências em mão de obra conduziram aqueles colonizadores a frequentar a costa moçambicana a partir de 1720, especialmente a Ilha de Moçambique e as Quirimbas, atingindo o tráfego proporções importantes a partir de 1771". Há historiadores que registaram terem saído de Moçambique, em 1760, cerca de 1500 escravos e na última década do século XVIII, mais de 5000 por ano. Em cinco anos, entre 1815 e 1820 estima-se terem sido exportados mais de 17000 escravos com destino ao Brasil e Ilhas francesas do Índico. Gwyn Campbel refere que "o crescimento dramático de escravos exportados da África Oriental Portuguesa reflecte-se no crescimento das receitas aduaneiras cobradas no comércio de escravos, que passaram de 32,5% para 55% das receitas totais cobradas entre 1818 e 1829, na Ilha de Moçambique e de 17% para 85% das receitas totais cobradas em Quelimane entre 1801 e1821. "A exportação de escravos a partir do Ibo foi praticamente reservada aos franceses no período que vai de 1820 a1829.....estima-se que a exportação de escravos a partir do Ibo representou cerca de 55 a 75% das exportações de escravos de Moçambique".[1] Segundo o mesmo autor a estimativa total das receitas arrecadadas nas alfândegas de Moçambique na exportação de escravos totalizaram cerca de 3 milhões de USD, em 50 anos ( de 1810 a 1860). 5- O crescimento do comércio marítimo desencadeado pelos portugueses na costa moçambicana impulsionou o desenvolvimento de relações comerciais complexas entre as populações locais, o que foi favorecido pela introdução de novos instrumentos de trabalho, de novos produtos para responder a uma crescente procura originada pelos mercadores e navegadores portugueses. Esta dinâmica comercial deu origem ao nascimento de uma nova maneira de encarar e lidar com a nova realidade económica e social introduzida pelo capitalismo mercantil. Os portugueses, na procura de espaço para a realização dos seus negócios , exploraram, como já nos referimos, as contradições existentes entre os chefes locais, concluindo acordos que lhes permitiram não só a liberdade de circulação como lograram a expulsão dos muçulmanos que foram substituídos pelos missionários católicos dominicanos e jesuítas que se encarregaram de difundir a religião cristã nos domínios do Império do Monomotapa, o que permitiu, o crescimento dos mercados e a conversão de muitos africanos à religião cristã. Podemos afirmar que a difusão do cristianismo na costa e no interior de Moçambique foi uma das consequências da expansão e controle do Comércio na Costa da África Oriental, a partir do século XVI. A organização económica predominante na região, antes do contacto com os mercadores estrangeiros, baseava-se, sobretudo, na produção de valores de uso. Com o incremento do comércio com os mercadores portugueses a organização económica dominante sofreu profundas transformações, levando os camponeses a produzirem valores de troca e a desenvolver trabalho por conta de terceiros e desenvolvendo o trabalho dos artesãos que passaram a ser integrados na rede comercial. O aumento da procura do ouro, do marfim e de produtos de agricultura provocou a introdução de novos produtos e o aparecimento de novas actividades e novas profissões. Os historiadores fazem menção de que a partir de 1500 até o século XIX assistiu-se, aos poucos, no sul da Zambézia, à introdução de novas culturas oriundas da Europa e da Ásia. Em Sofala e na Zambézia os camponeses moçambicanos passaram a cultivar o arroz, o yam, que não faziam parte, até à sua introdução, da dieta alimentar da população. A introdução da cana do açúcar passou a constituir um importante suplemento alimentar energético na dieta das populações. Foi introduzido o plantio de árvores de fruta originárias de Portugal e Índia, tais como, figueiras, ananazeiras, goiabeiras, papaieiras, limoeiros e laranjeiras. O milho foi introduzido no sul da Zambézia no século XVIII. A mandioca foi trazida para a África pelos navegadores portugueses, vinda da América do Sul entre os séculos XVI e XVIII e introduzida em Moçambique através das ilhas Reunião. Em Manica foi introduzida a cultura de trigo. Para avaliarmos melhor a importância da introdução de novas culturas no país, Carlos Serra refere que "as plantas alimentares trazidas pelos estrangeiros contribuíram para atenuar as sangrias provocadas pela escravatura, quer porque aumentaram e diversificaram a dieta alimentar campesina, quer porque tornaram possível, pelo crescimento da população, o repovoamento dos déficis em produtores"[2]. Segundo ainda Carlos Serra, na obra acima citada, a fiação e tecelagem do algodão desenvolveram-se nas terras zambezianas em resposta ao incremento da procura induzida pelos mercadores estrangeiros assim como se desenvolveu a mineração do ferro para o fabrico de enxadas que eram comercializadas noutras regiões de Moçambique. Do que ficou expresso neste pequeno percurso histórico, conclui-se que a ocupação efectiva do território que constitui o que é hoje Moçambique foi longa. Iniciou-se no século XVI e não foi pacífica. Ela decorreu percorrendo percursos complexos e variados desde a utilização de expedientes político-diplomáticos até à utilização da força militar. [3] 6- Moçambique desempenhou um papel importante no desenvolvimento do comércio marítimo levado a cabo pelos portugueses no Oceano Índico, porque i) o comércio e a prosperidade da Índia no comércio de especiarias dependia do controle da Costa Oriental da África; ii) a posição estratégica de Moçambique transformou-se no centro de articulação do comércio português entre o Índico e o Atlântico.[4] Os acontecimentos que se seguiram à abolição de escravatura e à Conferência de Berlim confirmaram a importância do Canal de Moçambique e da Costa moçambicana como corredor estratégico para o comércio marítimo entre o Índico e o Atlântico. Pode-se, assim, concordar com Luís Aires Barros quando afirma que "os portugueses lançaram as bases da estratégia geopolítica suportada no aproveitamento táctico das posições geográficas peculiares (estreitos, ilhas, ancoradouros, fozes de rios) para dominar manu militari dilatadas regiões continentais e controlar as rotas marítimas principais..."[5] O controle das principais rotas marítimas continuou a ser a preocupação primordial das grandes potências. Hoje mais de 90% do comércio internacional é transportado por via marítima e, controlar as principais rotas e portos constitui prioridade na estratégia dessas potências. Um estudo feito pelo National Defense University chama a atenção para a necessidade de assegurar a liberdade de navegação e sobretudo nas "choke-points" sendo essa a missão principal dos EUA. Esse estudo refere, por exemplo, que qualquer sugestão de que a liberdade de passagem pelo estreito de Malaca possa ser ameaçada, causaria noites de insónia aos comandos da marinha americana. Esta constatação confirma a observação feita por Luis Aires Barros ao considerar que a série de pontos nodais planetários definidos pelos portugueses mantêm a constância das suas importâncias. Moçambique, neste contexto, volta a evidenciar o seu papel estratégico e, na história contemporânea, retoma a sua importância nas relações económicas Ásia-Atlântico-América do Sul. O notável crescimento económico da China e da Índia desencadeia uma crescente procura de matérias primas do Continente Africano e da América Latina. É assim que se explica que a China se tenha tornado num dos mais importantes parceiros comerciais da África Sub-sahariana tendo quadruplicado as suas trocas comerciais com esta região a partir de 2000, perspectivando-se que elas quadrupliquem até o ano 2010. As importações da China provenientes da África, constituídas por petróleo, madeiras, algodão e outros produtos minerais, cresceram de uma forma vigorosa nos últimos anos. Por sua vez a África tem aumentado as suas importações provenientes da China, adquirindo produtos manufacturados com predomínio dos textéis. Perspectiva-se a continuação de crescimento futuro da China ainda que a ritmos reduzidos, o que faz antever a prevalência do dinamismo na procura de matérias primas provenientes da África e da América Latina, justificando novos investimentos nas minas e na modernização das infra-estruturas de transporte predominantemente no Continente Africano. As relações económicas entre a China e a América Latina registam um crescimento expressivo tendo passado de 7 biliões de USD para cerca de 54 biliões de USD de 1999 a 2005, isto é, nove vezes mais em seis anos. A China coloca-se assim entre os parceiros comerciais mais importantes da América Latina e Caraíbas. Para assegurar uma melhor participação no comércio mundial a China anunciou a expansão da sua marinha mercante, propondo-se liderar a indústria de construção naval num período de 10 a 15 anos. Com efeito, em 2006, a China anunciou investimentos de mais de 1 bilião de USD em infra-estruturas de transporte, durante os cinco anos seguintes. Estamos perante a ironia da História. No século XV, a China, deixou de navegar para a Costa Oriental da África por ordens do Imperador porque "o comércio era uma actividade baixa e a expansão marítima um risco para a integridade do Império". Hoje a grandeza e o prestígio do Império do Meio assenta na sua integração no Comércio Internacional e na expansão marítima. As relações económicas da Índia com a África e a América Latina seguem o mesmo percurso da China, embora com intensidades diferentes É considerando a evolução da economia global e o desenvolvimento das relações económicas Ásia -África-Atlântico Sul acima descritas, que a posição geo-estratégica de Moçambique tem de ser repensada. Como vimos, no passado, o comércio de especiarias e o tráfego de escravos fez da Costa Moçambique e dos seus portos pontos estratégicos para o desenvolvimento do comércio marítimo de longa distância ligando a Europa com a Ásia e fornecendo mão de obra escrava para as plantações do Brasil e das Ilhas francesas do Oceano Índico. Hoje, na sociedade do conhecimento em que os países se organizam em grandes blocos económicos e as organizações económicas em clusters, o crescimento económico impulsionando a procura de recursos minerais energéticos pelos novos países emergentes, nomeadamente, pela China e Índia e pelas grandes potências ocidentais, restitui à rota do Cabo e à Costa Moçambicana a importância estratégica que tiveram, a partir do século XV, para o desenvolvimento e prosperidade do capitalismo mercantil. Se soubermos explorar esta vantagem, podemos, todos, adoptando modelos de cooperação baseados na convergência de interesses e na consolidação e desenvolvimento das relações culturais e linguísticas que a História nos legou, extrair benefícios recíprocos para os nossos povos e economias. A China e a Índia estão interessadas nos recursos minerais energéticos e outros existentes na região e no nosso País e para isso estão disponíveis para realizar avultados investimentos para exploração e transporte desses recursos. Como nos referimos atrás, o interesse dessas potências asiáticas pela América Latina e Caraíbas é muito grande, atraídas pelas matérias primas e pela possibilidade de desenvolver uma cooperação técnica com benefícios para os países envolvidos. É razoável admitir que a cooperação económica daqueles países asiáticos com a América Latina e a África vai impulsionar o crescimento mais acelerado do comércio marítimo ligando o Atlântico Sul e o Oceano Índico, passando pela rota do Cabo. Reforça esta previsão se tivermos em conta que a partir de 1993 a China tornou-se um importador líquido de petróleo a seguir aos EUA, passando a representar, a partir de 2000 mais de 40% da procura mundial de petróleo bruto. A Índia, através de duas grandes empresas, comprou dois blocos para a exploração de carvão com uma área de mais de 30000ha e reservas comprovadas de mais de 70 milhões de toneladas. Informações recentes indicam que a Riverside Moçambique e a Tata Steel têm uma licença para exploração do carvão de Benga em Tete, com reservas avaliadas em mais de 2,1 mil milhões de toneladas, prevendo-se uma produção anual de 20 milhões de toneladas. A Companhia Brasileira Vale do Rio Doce detém direitos de exploração de carvão na bacia de Moatize que possui consideráveis reservas de carvão. Do que ficou dito parece razoável colocar Moçambique, com os seus portos profundos de Nacala e Pemba e as suas abundantes reservas de carvão já conhecidas, como parceiro que pode desempenhar um papel de relevo no aprovisionamento do carvão, sem excluir o seu aproveitamento local para fins industriais e energéticos o que vai requer investimentos consideráveis, prioritariamente, em infra-estruturas de transporte e instalações para prestação de serviços à marinha mercante que transita e vai transitar em maior volume por Moçambique ou escalar os seus portos. Segundo um estudo de Donna J. Nineie, o Canal de Moçambique figura entre um dos "chockepoints" escasso[6], o que evidencia a importância da costa moçambicana para o tráfico marítimo internacional sobretudo num mundo que vive momentos de crescimento sem precedentes do comércio internacional. 7-A inserção de Moçambique neste bloco de cooperação Sul-Sul cria espaço para a intervenção de Portugal, país europeu ligado ao Brasil e a Moçambique por laços históricos criados desde o período em que Portugal dominava a navegação marítima mundial, ocupando estrategicamente os principais "chockpoints" do Oceano Índico. A ocupação desse espaço deriva não apenas do papel desempenhado por Portugal a partir do século XV, ligando povos e culturas de vários continentes, mas sobretudo pela capacidade e experiência acumuladas no conhecimento dos mares, na ciência náutica e no domínio técnico de alguns sectores económicos de importância relevante na economia contemporânea . A cooperação entre Brasil, China, Índia, África do Sul e Moçambique, ou melhor, entre Brasil, China, Índia e SADC, desencadeia investimentos para a expansão da capacidade de transporte marítimo e infra-estruturas portuárias, eficientes e competitivas. O envolvimento de Portugal nesses projectos pode trazer benefícios em termos económicos, pela redução dos custos e eficiência que se pode obter na preparação e execução de projectos, com melhor aproveitamento do conhecimento da geografia onde os projectos vão ser implantados. Se o facto de nos exprimirmos na mesma língua pode constituir uma vantagem, isso pode não ser suficiente, se esse capital não for portador de benefícios económicos para as partes envolvidas. O facto de Portugal e as empresas portuguesas serem possuidoras de conhecimento do Oceano Índico, da sua hidrografia, da cartografia e características das baías e portos moçambicanos, constitui uma vantagem que, aliada à experiência e capacidade demonstrados na construção dos portos e estaleiros navais de grande envergadura, pode, se convenientemente explorada, aportar economias e competitividade à cooperação Sul-Sul do eixo Brasil-China. No passado a Lisnave chegou a equacionar a construção de estaleiros em Moçambique, projecto que foi entretanto frustrado por razões de ordem política. Hoje, parece estarem criadas as condições para se re-visitarem esses projectos e se reavivarem conhecimentos para, desta vez, em conjunto, em harmonia e não em conflito, ocuparmos as posições estratégicas do comércio marítimo ligando o Atlântico ao Índico. BIBLICOGRAFIA: 1- Antunes, Luis Frederico Formas de Comunicação entre mercadores indianos e Autoridades portuguesas da Africa Oiental In: Cultura: Revista de História e Teoria de Ideias , Vol XXIV, 2007/ II Série 2- Aubim, Jean Marchés et Hommes d'afferes asiatiques dans l'Ocean Indien et la Mer de Chine- 13e-20e Siècles. Ètudes publiées sous la direccion de Denys Bombard Éditions de L'Ecole de Hautes Etudes em Sciences Sociales- Paris 3- Barros, Luis Aires Das Rotas quinhentistas das especiarias e da pedraria às rotas actuais dos combustíveis e dos minerais de alta tecnologia 4- Bento, Carlos Lopes As Ilhas de Quirimba ou de Cabo Delgado Situação colonial, resistência e mudança 5- Boxer, C.R. Império Marítimo Português , 1415-1825 Edições 70 6- Capela, José As burguesias portuguesas e a abolição do tráfico de escravatura, 1810-1842 Colecção- Armas e os Barões 7- Capela, José O tráfico de escravos de Moçambique para as Ilhas do Índico, 1720-1902 8- Chaudhuri, K.N. Trade and Civilization in the Indian Ocean. An Economic History from the rise of Islam. Cambridge University Press 9- Chittick, Neville Afrique de L'Est et L'Orient: Les port et commerce avant l'arrivée des portugais 10- Clarence Smith, &William Gervose Economics of the Indian Ocean slave trade in the Nineteenth Century 11- Fox, John G Sea Change: Strategic Consequences of the Transformation of World Shipping 12- Horton, Mark O Encontro dos portugueses com as cidades Swahiles da Costa Oriental da África 13- Jiafu, Wei What will China further contribute to world shipping Delivered on world (China) Summit, in Shezhen, November 14- Lima, Erikson Teixeira & Luciano Octávio Marques Velasco Marinha Mercante do Brasil: Perpectivas no novo comércio mundial 15- Prata, A. Pires A influência da língua portuguesa sobre o swahili e quatro línguas de Moçambique 16- Russel-Wood, A. J. R A World on the move: The Portuguese in Africa, Asia and America - 1415-1808 17- Oliveira, Antonio de Destinos do Império: Da Construção ao apogeu e à decadência 18- Santos, Corsino Medeiros Moçambique como centro de articulação do Comércio portugues do Índico- Afro asiatico Universidade de Brasilia 19- Serra, Carlos Como a penetração estrangeira transformou o modo de produção dos camponeses moçambicanos Volumes I e II, Colecção Moçambique e sua História 20- Keay, John A Rota das Especiarias Casa das Letras-2005 21- Vários autores em General History of Africa- Vol V Africa from Sexteenth Century to Eighteenth Century Edição B.A. OGOT- UNESCO [1] In: Madagascar and Mozambique in slave trade of the western Indian Ocean Ver também Carlos Lopes Bento in: "As Ilhas Quirimbas ou de Cabo Delgado- Situação Colonial, resistência e mudanças. [2] Carlos Serra em "Como a penetração estrangeira transformou o modo de produção dos camponeses moçambicanos" [3] Eduardo Mondlane: O Desenvolvimento do nacionalismo em Moçambique(1964). Declaração de Eduardo Mondlane presidente da FRELIMO, feita em Dar-es-Salam a 3 de Dezembro de 1964 - in , Bragança, Aquino e Wallerstein, Immanuel.- Quem é o inimigo. [4] Corsino Medeiros dos Santos, em " Moçambique como centro de articulação do Comércio Portugues Índico-afro asiárico" [5] Luis Aires Barros in: Das Rotas quinhentistas das especiarias e da pedraria às rotas actuais dos combustíveis e dos minerais de alta tecnologia. [6] Donna J.Nenei diz que um recurso é escasso quando a sua oferta está ameaçada porque o recurso não é renovável ou porque está sendo usado a ritmos que não permite a sua renovação. Para Donna, a escassez tambem existe quando há crescimento na procura desse recurso e por qualquer razão a sua oferta é fixa ou diminuiu ou tem poucos substitutos. Nestas condições o mercado não pode elevar muito o preço para regular a procura porque o recurso é preço-ineláslico. Por outras palavras a escassez de um recurso implica que a quantidade disponível ou acessível é insuficiente face à procura efectiva. Segundo dados da Maritime Dynamic Traffic Generator, , transitavam, em média, por dia , na década de 70 cerca de 100 navios. Não temos informação para avaliar o volume de tráfico nos anos mais recentes, mas é de se presumir que o mesmo tenha aumentado substancialmente. |
