Congresso - Os Mares da Lusofonia


I - A extensãoda Plataforma Continental nos Países da Lusofonia

II - Implicações Politicas e de Segurança

III - Aspectos Juridicos

IV - Ambiente, Ciência e Tecnologia

V - O Valor Económico (potencial) do Fundo do Mar
Intervenção - Conferência " D. Carlos I"

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Dr. Paulo Teixeira Pinto :: Conferência D. Carlos I Video

Conferência D. Carlos I

"IR PARA DIANTE"

"As numerosas investigações oceanographicas, que as nações estrangeiras têem realizado n'estes últimos annos, com tão profícuos resultados, a importância que esta ordem de estudos tem para a industria da pesca, uma das principais do nosso paiz, e a excepcional variedade de condições bathymetricas, que apresenta o mar que banha as nossas costas, sugeriram-nos no anno findo a idéa de explorar scientificamente o nosso mar, e o dar a conhecer, por meio de um estudo regular, não só a fauna do nosso plan'alto continental, mas também a dos abysmos. Que, por exemplo quasi único na Europa, se encontram em certos pontos, a poucas milhas da costa"

D.CARLOS (1897) - in Introdução dos resultados preliminares do seu primeiro cruzeiro em Setembro de 1896, a bordo do iate Amélia

I.              O  provocador e a sua paixão (chamada mar)

El Rei D.Carlos foi, como hoje é pacificamente aceite por toda a historiografia, um Rei diferente. Diferente, desde logo, pela variedade de talentos que patenteava, mas também pela natureza dos mesmos.


Agora que ainda vivemos o ano do centenário da morte do único Rei de Portugal, a par de D.Sebastião, que morreu de morte violenta, e quando foram já objecto de publicação tantos e tantos estudos sobre aquele Monarca, que sobre o ser, foi um enorme vulto da Cultura Portuguesa, talvez dizer se possa que se houvesse por que definir aquele Rei numa única expressão, eu diria, parafraseando as palavras do próprio, que D. Carlos foi um provocador da "quietude das profundidades".

II.            O paradoxo de uma paixão (onde se cruzam e descruzam o mar, a terra e uma provocação do destino)

Em 2 de Outubro de 1873, então com 10 anos de idade, aquele que viria a ser D. Carlos, Rei de Portugal, esteve quase afogar-se, na Boca do Inferno, tendo sido salvo por um faroleiro de modo dramático. Mas não morreu porque estava destinado a viver. E a ter encontro com a morte em terra.

Diz-se que"quem escapa de morrer no mar deixa de ter cuidado em terra". Não foi, manifestamente, o caso.

Mas talvez não seja só uma ironia do destino, antes sim outra provocação, que o último quadro que D. Carlos tenha pintado (um pastel que ficou inacabado) retrate, como que por acaso, o Mexilhoeiro cascaense em que quase morrera.

III.           Cronograma de uma paixão (sempre maior)

1878 - O Rei D. Luís oferece-lhe a sua primeira embarcação, à qual põe - não por coincidência, adiante-se desde já - o nome de "Nautilus"

1887 - É tenente-coronel. Preside à Subcomissão de Defesa Marítima da Barra do Tejo e da cidade de Lisboa

1889 - É coronel (será entronizado no mesmo ano) e membro do Conselho Superior de Guerra

1896 - Inicia a 1 de Setembro a primeira de doze campanhas oceanográficas que ocorrerão nos doze anos seguintes, sempre a bordo de iates com o nome "Amélia", os quais foram sempre aumentando de comprimento à medida que crescia também o empenho do Rei (os 4 iates mediram sucessivamente 35, 45, 55 e por último 70 metros); durante essas campanhas D. Carlos empreendeu 290 estações, 339 sondagens, 172 dragagens e foi autor de 19 cartas batimétricas, à escala de 1/100.000, de que é exemplo a primeira a ter por objecto a zona do canhão de Setúbal

1898 - Publica na Imprensa Nacional "A Pesca do Atum no Algarve" e incentivou a criação do primeiro Museu Oceanográfico, no Dafundo  (depois Aquário Vasco Gama)

1901 - Decreto Real de 12 de Agosto que determina a elaboração de cartas de pesca

1904 - Publica um estudo sobre os tubarões portugueses

1907 - Concede o seu beneplácito régio à constituição da Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais

1908 - Funda a "Estação de Biologia Marítima de Lisboa" e a  "Comissão de Oceanografia"

IV. Em torno de uma paixão (esta e os outros)

Como se viu, D. Carlos foi o verdadeiro fundador da ciência oceanográfica em Portugal. Se não bastasse comprová-lo pela circunstância de ter decidido a instituição do primeiro laboratório oceanográfico, ou pelos estudos editados, uma análise, ainda que superficial, sobre a Colecção que se lhe reporta, e que hoje está patente no Aquário Vasco da Gama, servirá seguramente de testemunho bastante.

E quem terá contribuído mais para a forma apaixonada como D. Carlos se lançou ao estudo do mar e dos seus infinitos recursos e segredos?

O primeiro vulto que surge é, sem dúvida, o de Alberto do Mónaco, que um dia haveria de chamar a El Rei D. Carlos "monarca sábio", o qual teve uma influência decisiva na dedicação científica com que o nosso soberano passou a emprestar à sua paixão pelo mar.

Efectivamente, os dois conheceram-se pessoalmente em 1873,  numa recepção no Paço Real da Ajuda. Mas foi noutro encontro, em 1879, na sequência de uma escala que o Príncipe do Mónaco fez em Lisboa, precisamente a bordo do primeiro dos seus iates (o "Hirondelle") com que empreendeu as suas próprias campanhas oceanográficas, que nasceu a partilha por uma devoção comum, a qual os levaria mais tarde a passar a trocar assídua correspondência sobre os assuntos naturalistas em geral e marítimos em particular.

Outro nome relevante associado à investigação empreendida por D. Carlos é o de Albert Girard. E se é certo que o futuro Rei, já tinha lido, aos 19 anos, a bibliografia integral da vasta equipa de peritos do navio oceanográfico francês "Travailleur", não menos verdade é que o único cientista com quem veio a trabalhar numa relação de proximidade foi Girard, nascido em Nova Iorque de uma família francesa mas vivendo desde criança em Portugal, o qual havia começado a respectiva carreira profissional pelo Museu de Zoologia da Escola Politécnica.

IV.          A coincidência de uma paixão (ou uma ironia entre a ficção e a realidade)

Dissemos atrás que a primeira embarcação de D.Carlos tinha o nome de "Nautilus" e que tal não se ficara a dever ao acaso. Na verdade não. Como não resulta difícil imaginar qual a fonte de inspiração para tal nome. O então Príncipe lera, evidentemente, o célebre livro de Júlio Verne "As Vinte Mil Léguas Submarinas" - aliás uma das maiores criações ficcionais concebidas pelo génio daquele autor visionário.

E se aquela obra versa sobre uma ficção que inspirou profundamente a vida real do futuro Rei de Portugal, real é também o facto, oferecido por uma daquelas ironias com que a História usa para desafiar o destino, de ter sido escrita em 1870 e por coincidência logo em Portugal, logo no Dafundo, onde hoje subsiste a evidência real de uma paixão real.

("A altura reside na profundidade")