| Intervenção - Conferência " D. Carlos I" |
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Conferência D. Carlos I "IR
PARA DIANTE"
"As numerosas investigações oceanographicas, que as nações estrangeiras têem realizado n'estes últimos annos, com tão profícuos resultados, a importância que esta ordem de estudos tem para a industria da pesca, uma das principais do nosso paiz, e a excepcional variedade de condições bathymetricas, que apresenta o mar que banha as nossas costas, sugeriram-nos no anno findo a idéa de explorar scientificamente o nosso mar, e o dar a conhecer, por meio de um estudo regular, não só a fauna do nosso plan'alto continental, mas também a dos abysmos. Que, por exemplo quasi único na Europa, se encontram em certos pontos, a poucas milhas da costa"
D.CARLOS (1897) - in Introdução dos resultados preliminares do seu primeiro cruzeiro em Setembro de 1896, a bordo do iate Amélia I. O provocador e a sua paixão (chamada mar)
El Rei D.Carlos foi, como hoje é pacificamente aceite por toda a historiografia, um Rei diferente. Diferente, desde logo, pela variedade de talentos que patenteava, mas também pela natureza dos mesmos.
II. O paradoxo de uma paixão (onde se cruzam e descruzam o mar, a terra e uma provocação do destino) Em 2 de Outubro de 1873, então com 10 anos de idade, aquele que viria a ser D. Carlos, Rei de Portugal, esteve quase afogar-se, na Boca do Inferno, tendo sido salvo por um faroleiro de modo dramático. Mas não morreu porque estava destinado a viver. E a ter encontro com a morte em terra. Diz-se que"quem escapa de morrer no mar deixa de ter cuidado em terra". Não foi, manifestamente, o caso. Mas talvez não seja só uma ironia do destino, antes sim outra provocação, que o último quadro que D. Carlos tenha pintado (um pastel que ficou inacabado) retrate, como que por acaso, o Mexilhoeiro cascaense em que quase morrera.
III. Cronograma de uma paixão (sempre maior) 1878 - O Rei D. Luís oferece-lhe a sua primeira embarcação, à qual põe - não por coincidência, adiante-se desde já - o nome de "Nautilus" 1887 - É tenente-coronel. Preside à Subcomissão de Defesa Marítima da Barra do Tejo e da cidade de Lisboa 1889 - É coronel (será entronizado no mesmo ano) e membro do Conselho Superior de Guerra 1896 - Inicia a 1 de Setembro a primeira de doze campanhas oceanográficas que ocorrerão nos doze anos seguintes, sempre a bordo de iates com o nome "Amélia", os quais foram sempre aumentando de comprimento à medida que crescia também o empenho do Rei (os 4 iates mediram sucessivamente 35, 45, 55 e por último 70 metros); durante essas campanhas D. Carlos empreendeu 290 estações, 339 sondagens, 172 dragagens e foi autor de 19 cartas batimétricas, à escala de 1/100.000, de que é exemplo a primeira a ter por objecto a zona do canhão de Setúbal 1898 - Publica na Imprensa Nacional "A Pesca do Atum no Algarve" e incentivou a criação do primeiro Museu Oceanográfico, no Dafundo (depois Aquário Vasco Gama) 1901 - Decreto Real de 12 de Agosto que determina a elaboração de cartas de pesca 1904 - Publica um estudo sobre os tubarões portugueses 1907 - Concede o seu beneplácito régio à constituição da Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais 1908 - Funda a "Estação de Biologia Marítima de Lisboa" e a "Comissão de Oceanografia"
IV. Em torno de uma paixão (esta e os outros) Como se viu, D. Carlos foi o verdadeiro fundador da ciência oceanográfica em Portugal. Se não bastasse comprová-lo pela circunstância de ter decidido a instituição do primeiro laboratório oceanográfico, ou pelos estudos editados, uma análise, ainda que superficial, sobre a Colecção que se lhe reporta, e que hoje está patente no Aquário Vasco da Gama, servirá seguramente de testemunho bastante. E quem terá contribuído mais para a forma apaixonada como D. Carlos se lançou ao estudo do mar e dos seus infinitos recursos e segredos? O primeiro vulto que surge é, sem dúvida, o de Alberto do Mónaco, que um dia haveria de chamar a El Rei D. Carlos "monarca sábio", o qual teve uma influência decisiva na dedicação científica com que o nosso soberano passou a emprestar à sua paixão pelo mar. Efectivamente, os dois conheceram-se pessoalmente em 1873, numa recepção no Paço Real da Ajuda. Mas foi noutro encontro, em 1879, na sequência de uma escala que o Príncipe do Mónaco fez em Lisboa, precisamente a bordo do primeiro dos seus iates (o "Hirondelle") com que empreendeu as suas próprias campanhas oceanográficas, que nasceu a partilha por uma devoção comum, a qual os levaria mais tarde a passar a trocar assídua correspondência sobre os assuntos naturalistas em geral e marítimos em particular. Outro nome relevante associado à investigação empreendida por D. Carlos é o de Albert Girard. E se é certo que o futuro Rei, já tinha lido, aos 19 anos, a bibliografia integral da vasta equipa de peritos do navio oceanográfico francês "Travailleur", não menos verdade é que o único cientista com quem veio a trabalhar numa relação de proximidade foi Girard, nascido em Nova Iorque de uma família francesa mas vivendo desde criança em Portugal, o qual havia começado a respectiva carreira profissional pelo Museu de Zoologia da Escola Politécnica. IV. A coincidência de uma paixão (ou uma ironia entre a ficção e a realidade)
Dissemos atrás que a primeira embarcação de D.Carlos tinha o nome de "Nautilus" e que tal não se ficara a dever ao acaso. Na verdade não. Como não resulta difícil imaginar qual a fonte de inspiração para tal nome. O então Príncipe lera, evidentemente, o célebre livro de Júlio Verne "As Vinte Mil Léguas Submarinas" - aliás uma das maiores criações ficcionais concebidas pelo génio daquele autor visionário. E se aquela obra versa sobre uma ficção que inspirou profundamente a vida real do futuro Rei de Portugal, real é também o facto, oferecido por uma daquelas ironias com que a História usa para desafiar o destino, de ter sido escrita em 1870 e por coincidência logo em Portugal, logo no Dafundo, onde hoje subsiste a evidência real de uma paixão real.
("A altura reside na profundidade") |
